No mês passado, a RDW, órgão regulador de veículos dos Países Baixos, deu sinal verde ao sistema avançado de assistência ao motorista da Tesla, o Full Self-Driving Supervised (FSD Supervised). Ainda assim, a tecnologia continua longe de ser liberada nos demais países da União Europeia.
Apesar de Elon Musk, CEO da Tesla, demonstrar confiança de que a aprovação europeia do FSD Supervised seria apenas uma questão de tempo, os reguladores do bloco não parecem compartilhar esse mesmo entusiasmo.
Embora a decisão da RDW possa abrir espaço para que outros Estados-membros aceitem provisoriamente a tecnologia, até o momento nenhum país deu esse passo.
As dúvidas dos reguladores
Segundo uma série de mensagens internas trocadas entre reguladores de diferentes países nórdicos, às quais a Reuters teve acesso, as preocupações colocadas são objetivas. Hans Nordin, pesquisador da Swedish Transport Agency, disse ter se surpreendido ao constatar que o sistema permite que o carro trafegue acima dos limites de velocidade - algo que, na avaliação dele, não deveria ser permitido.
Na Finlândia, Jukka Juhola, dirigente da agência de transportes do país, questionou publicamente se a Tesla de fato estaria propondo um sistema de condução autônoma para uso em estradas congeladas a 80 km/h. Também foram levantadas dúvidas sobre como o sistema se comportaria ao se deparar com animais grandes na pista, como alces.
Além disso, segue em pauta a forma como o sistema é batizado. Para diversos reguladores, o nome “Full Self-Driving” pode induzir motoristas ao erro, fazendo-os acreditar que o veículo opera de maneira realmente autônoma.
Vale lembrar que, no fim do ano passado, a montadora norte-americana foi impedida de vender seus modelos por 30 dias na Califórnia, após o California Department of Motor Vehicles (DMV) concluir que os termos usados pela empresa - “Autopilot”, oferecido de série na maioria dos modelos, e “Full Self-Driving” (FSD), pacote opcional - configuram propaganda enganosa, já que os veículos não funcionam de forma totalmente autônoma.
Ainda assim, nem tudo foi visto como problema: Frank Schack Rasmussen, regulador dinamarquês, elogiou o desempenho do sistema em situações de trânsito pesado. Além disso, Anders Eriksson, também pesquisador da Swedish Transport Agency, afirmou que o país é “de forma geral, favorável” à condução autônoma, desde que as regras vigentes sejam respeitadas.
Uma estratégia que irritou reguladores
Além dos pontos técnicos, a forma como a Tesla conduziu o processo de validação também provocou atritos. Poucos dias depois da aprovação nos Países Baixos, um representante de políticas da empresa procurou as autoridades suecas solicitando que reconhecessem a decisão - antes mesmo de qualquer documentação técnica ter sido compartilhada. Estônia e Finlândia disseram ter recebido pedidos parecidos.
Ao mesmo tempo, Elon Musk teria incentivado publicamente donos de carros da Tesla a pressionarem reguladores pela liberação do FSD, durante a assembleia anual de acionistas em novembro do ano passado.
A reação dos entusiastas veio rapidamente: reguladores de diferentes países passaram a receber uma enxurrada de e-mails de proprietários exigindo a aprovação. Ivan Komusanac, gerente de Políticas e Desenvolvimento de Negócios da Tesla na UE, acabou pedindo desculpas e admitiu que esse tipo de pressão “habitualmente não é útil para o processo de aprovação”.
O que falta para a aprovação europeia
Para que o FSD da Tesla seja aprovado, é preciso uma maioria qualificada de pelo menos 15 dos 27 Estados-membros, que representem 65% da população do bloco. A próxima etapa formal é a reunião do Comitê Técnico de Veículos a Motor da UE, marcada para esta semana.
Se o sistema não avançar na União Europeia, a montadora norte-americana pode ter perdas relevantes. No ano passado, as vendas da Tesla na Europa recuaram 27%. O FSD - hoje vendido apenas por assinatura mensal - é visto internamente como uma fonte de receita essencial para recuperar espaço.
Dentro da empresa, a expectativa divulgada era obter a aprovação em nível europeu ainda no segundo ou no terceiro trimestre deste ano. A Tesla não respondeu aos pedidos de comentário.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário