As cápsulas softgel - aquela forma lisa e fácil de engolir usada em muitos medicamentos e suplementos - vêm ganhando espaço como um jeito prático de fornecer desde vitaminas até ômega-3.
Elas combinam um conteúdo líquido no interior com uma cápsula macia e flexível por fora, o que costuma facilitar o uso e a eficácia. Ao mesmo tempo, esse formato tem sido cada vez mais questionado por um motivo pouco esperado: a presença de plastificantes.
O que são cápsulas softgel e por que são tão usadas
Para que a cápsula fique maleável e não quebre com facilidade, fabricantes costumam adicionar plastificantes - substâncias químicas conhecidas como ftalatos. Esses compostos ajudam a dar flexibilidade e resistência ao material, mas também são associados a diferentes preocupações de saúde.
Os ftalatos são considerados desreguladores endócrinos, isto é, substâncias capazes de interferir no funcionamento do sistema hormonal. Pesquisas - sobretudo em animais - indicam possíveis efeitos no desenvolvimento reprodutivo, na fertilidade e no equilíbrio hormonal.
Em estudos com pessoas, já foram observadas associações com defeitos congênitos, alergias em crianças e até doença cardíaca. Ainda assim, a comunidade científica segue a tentar entender melhor quais são os riscos e a partir de que nível de exposição eles se tornam preocupantes.
Ftalatos (plastificantes): uma família de substâncias, não um único químico
Um ponto que dificulta avaliar a segurança dos ftalatos é que não existe “um” ftalato. Trata-se de um grupo grande de compostos, com características e perfis de risco distintos. Nem todos são usados em cápsulas softgel, e muitas das maiores exposições vêm de fontes do dia a dia, como pisos de vinil, cortinas de box, perfumes e aromatizadores de ambiente.
Mesmo que os ftalatos presentes em softgels provavelmente não sejam a principal parcela da exposição total, eles merecem atenção - especialmente para quem toma vários suplementos todos os dias.
Quais ftalatos aparecem em medicamentos e suplementos
Alguns ftalatos têm uso farmacêutico autorizado, incluindo ftalato de dietila (DEP), ftalato de acetato de celulose, ftalato de acetato de polivinila e ftalato de hipromelose.
O DEP, que é o plastificante mais comum em softgels, é visto como tendo toxicidade relativamente baixa e costuma ser aplicado em quantidades pequenas. Já os demais são usados com mais frequência para ajudar certos medicamentos a resistirem ao ácido do estômago e, quando utilizados de forma adequada, em geral são considerados seguros.
Ainda assim, há ftalatos que geram mais preocupação, como o ftalato de dibutila (DBP). O DBP foi associado a problemas reprodutivos e de desenvolvimento, e por isso seu uso em medicamentos hoje é fortemente limitado.
Outros compostos, como o ftalato de di-(2-etil-hexila) e o ftalato de diisodecila, aparecem mais em dispositivos médicos (por exemplo, bolsas de soro intravenoso) e também são alvo de regulação rigorosa.
Evidências de pesquisa sugerem que a exposição prolongada a essas substâncias pode elevar o risco de condições como resistência à insulina, inflamação e doença cardiovascular - com atenção especial a crianças e gestantes.
Regulado, mas nem sempre óbvio
Órgãos reguladores de saúde, incluindo a Agência Europeia de Medicamentos e a Administração de Alimentos e Medicamentos dos EUA (FDA), estabeleceram orientações claras para o uso de ftalatos em medicamentos. Essas regras incluem limites de ingestão diária e acompanhamento contínuo de segurança.
Fora do universo dos remédios sob prescrição, porém, o cenário pode ficar menos transparente.
Muitos suplementos são vendidos sem receita e consumidos sem acompanhamento profissional. Com isso, é possível que algumas pessoas ultrapassem sem perceber níveis considerados seguros de ftalatos, sobretudo quando essa exposição se soma a outras fontes ambientais.
Por isso, apesar de os ftalatos em medicamentos serem regulados, informação faz diferença. Quem estiver preocupado pode ler os rótulos de ingredientes, conversar com o farmacêutico ou procurar opções sem ftalatos.
E, à medida que a ciência avança, tanto reguladores quanto fabricantes terão de reavaliar continuamente de que forma - e em que situações - esses químicos devem ser utilizados.
Craig Russell, Professor, Farmácia, Universidade Aston
Este artigo foi republicado de The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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